REVISTA PARÓQUIAS & CASAS RELIGIOSAS
A Bioética é uma área de discussão recente, assunto contemporâneo surgido na esteira do desenvolvimento da Ciência e da Medicina na primeira metade do século XX. O senhor pode falar um pouco sobre suas origens, preceitos e objetivos?
Foi exatamente a partir de 1970 que se começou a falar em “Bioética”, a partir de um livro publicado por um estudioso norte-americano de nome Potter. O título do livro era muito sugestivo: “Bioética: uma ponte para o futuro”. Nesse texto ele expressou o que muitos estudiosos já vinham percebendo: a ética tradicional parecia incapaz de responder aos novos desafios que iam se impondo com os avanços da biogenética e da biotecnologia. Interessante observar que neste livro aparecem alguns elementos de bioética, depois reforçados por outros autores: sensibilidade para a vida em todas as manifestações; respeito à autonomia da pessoa; respeito à justiça; evitar o mal e só fazer o bem às pessoas, em quaisquer circunstâncias.
Quais são os desafios de um “pensador” da Bioética ?
Certamente são muitos os desafios, pois a vida apresenta uma infinidade de aspectos, que a cada dia se revelam como mais complexos e mais interligados entre si. Assim, já não é possível trabalhar com categorias simples do “pode” ou “não pode”. A bioética se caracteriza por um diálogo interdisciplinar, onde o pressuposto é o de que ninguém tem a resposta pronta, mas onde todos, a partir de certos princípios básicos, principalmente este do respeito à vida em todas as suas manifestações e em todas as suas etapas, devem buscar juntos a melhor solução. Assim, o pensador da bioética deverá estar sempre aberto ao diálogo e caminhar com muita humildade.
A ciência nunca evoluiu tão rápido em nenhum outro momento da História e as manchetes da mídia secular podem confundir, ao invés de informar, o leigo que se mostra curioso sobre os “milagres” da Medicina e da pesquisa científica. Qual deve ser a atitude de um líder religioso ou de comunidades, quando lhe é exigido tocar nesse assunto? Quais são os canais seguros de pesquisa para um professor, por exemplo?
Todos conhecemos a tradicional lista de virtudes: fé, esperança, caridade, prudência... etc. Essa lista continua válida, mas deve ser enriquecida diante dos novos avanços em todos os sentidos. Assim, pode-se, com razão, dizer que há virtudes que aparecem como “novas” para responder aos desafios da era biotecnológica: consciência crítica; desconfiança diante de receitas fáceis; humildade diante dos resultados anunciados; partilha das conquistas; sinceridade diante dos fracassos; sobretudo: cultivo de uma atitude de reverência diante dos mistérios da vida. No mais, o momento histórico exige que não sejamos nem pessimistas, nem ingenuamente otimistas. Isto porque conhecemos as fraquezas humanas e porque conhecemos a força de Deus que caminha conosco, guiando seu povo ao longo da história.
Células-tronco, cuja idéia propagada é de que as pesquisas nessa área darão o poder da criação ao cientista e ao laboratório, e que evoluem com uma rapidez vertiginosa. O que realmente está ocorrendo no mundo da ciência em relação a isso?
A descoberta das células tronco é algo de extraordinário, e uma das manifestações da sabedoria de Deus, que fez bem todas as coisas. O que há de extraordinário nas células tronco? Muita coisa. Primeiro: espermatozóide e óvulo se unem para dar início a um processo vital, que se não for interrompido por fatores externos vai conduzir o ser humano desde o primeiro ao último momento de sua vida. Estas células embrionárias são células.... é bom frisar bem.... e destinadas a propulsão.... para possibilitar a progressiva estruturação dos seres vivos.... Em seguida: a partir destas células que vão desdobrando aos milhões... aos trilhões.... os seres vivos contam com uma reserva estratégica para cada órgão, para cada membro, para cada parte do seu organismo.... Morrem milhões de células e entram milhões para substituí-las. Mecanismo maravilhoso. Pois bem, acontece que se alguém “colher” as células embrionárias, aquelas que se formam logo no início, ou vai lesar o ser que ia se desenvolvendo, ou vai mesmo matar.... E aqui está o problema ético básico: quem tem direito de lesar ou eliminar uma vida humana , ainda que ela esteja dando os primeiros passos?
Outra coisa: há um noticiário sensacionalista que acha que tudo é muito simples.... já chegamos lá.... Ora, estamos falando de trilhões de células.... e trilhões de outros elementos químicos, todos interligados.... Muita pretensão humana de resolver tudo com células. Mas... em se tratando de células maduras, ou adultas, que todos já sabem quais são, dentro de critérios éticos normais, nada contra pesquisas, contanto que não se pense que com isto iremos resolver todos ou os verdadeiros problemas humanos....
Os estudos das células-tronco a partir das células de embriões humanos são criticados pela Igreja, mesmo que este fosse o melhor caminho para a cura de males, como lesões da coluna ou doenças degenerativas, por exemplo? Por quê?
Aqui se encontra um paradoxo gritante: um mundo que não sente piedade da miséria na qual vivem cerca de dois bilhões de seres humanos esquálidos.... um mundo que tem na indústria bélica a mola mestra da sua economia.... um mundo que planeja invasões, mortes de milhares de pessoas.... é tão sensível com os relativamente poucos portadores de deficiências. Até parece que quase toda pessoa de idade padece de Alzheimer ou do mal de Parkinson.... Até parece que a maior parte da população vive em cadeiras de rodas.... E quantas vivem mesmo em cadeira de rotas por terem sido vítimas de tantas e variadas formas de violência? Diante destas colocações se entende a posição lúcida não só da igreja, mas dos verdadeiros cientistas: o que está em jogo não é apenas uma questão genética, mas uma maneira de viver como pessoa e como sociedade. Não somos só genes, nem só corpo: somos sentimentos, coração, afetividade, espiritualidade.... Claro que faremos tudo o que for possível para aliviar os sofrimentos humanos, mas como acentua com propriedade a última carta do Papa Bento XVI sobre a esperança - “... não devemos nos iludir: sempre haverá sofrimentos”. Só que os piores não são os “naturais”, próprios da nossa condição humana, mas os provocados pela maldade humana.
Roger Shattuck em seu livro “Conhecimento proibido” cita um discurso do físico Robert Oppenheimer, em um parágrafo sobre a liberação da energia atômica, onde o cientista afirma que seus colegas de pesquisa cometeram um “pecado” em relação à energia atômica, em 1947. A ciência está chegando ao ser humano e estaria resvalando em seus limites. Tal analogia foi feita pela profa. Marcia Garcia, especialista em Biodireito”, em um debate promovido pelo Portal do Grupo Estado, observando que o discurso do físico, naquela época, ficou em aberto e como ela bem observou, nem religioso o físico era. O senhor concorda com essa citação ou analogia?
Bom paralelo este entre a descoberta da energia atômica e os avanços nos campos da biogenética e da biotecnologia. Tanto em um caso quanto no outro, nos alegramos com as conquistas científicas e conquistas tecnológicas. A questão não está nem na ciência, nem na tecnologia, mas nas ideologias que comandam tudo isto. Em outros termos: existe uma energia atômica para uso pacífico e uma para produzir bombas; assim existe uma tecnologia que pode ajudar-nos a viver melhor, e uma que pode aumentar ainda mais nossos sofrimentos. Os limites não devem ser traçado nem para as ciências em si mesmas, nem para as tecnologias em si mesmas, mas para certas experiências que só poderão levar a uma maior desumanização. Nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente sustentável.... Deus nos confiou a administração de todas as coisas, exigindo apenas que esta administração seja sábia.... E para ser sábia deverá se perguntar pela origem e sentido último de todas as coisas....
A professora afirma que poderia estar ocorrendo o mesmo “pecado científico” em relação à manipulação do corpo humano e às pesquisas com o genoma, células-tronco ou o DNA. Será?
Esta questão já está respondida acima: claro que em tudo existem limites que nós não podemos ultrapassar, sem nos prejudicar a nós mesmos e aos outros. Poderíamos dizer que uma das finalidades da bioética é ajudar a estabelecer estes limites com sabedoria. Daí a necessidade de muito diálogo e de um grande espírito de reverência diante dos mistérios da vida. Entrar no templo da vida não é proibido: o que não pode ocorrer é que se entre neste templo como se entra em um bar ou em uma boate.... É preciso entrar de joelhos.
O mesmo Roger Shattuck levanta clássicos questionamentos sobre os resultados obtidos a partir dos métodos nazistas de pesquisa científica, e da aplicação desses conhecimentos, ora tidos como inadmissíveis, ora aceitos como uma espécie de “homenagem” aos seres humanos submetidos a verdadeiras torturas desses “métodos”. O senhor acha que esse exemplo histórico é válido como retórica contrária às pesquisas com embriões? Por quê?
A figura de Hitler com o séqüito nazista é tão trágica que servirá de advertência para sempre. E no entanto... por vezes se tem a impressão que se usa Hitler e seus seguidores como uma espécie de bodes expiatórios, como se eles tivessem sido os causadores das maiores barbáries da história. Basta refletir um pouco para perceber que, infelizmente, existem hoje, em nossos dias, títeres tão ou ainda mais bárbaros do que Hitler.... Basta pensar nas muitas torturas que retornam sempre de novo e hoje com maior sofisticação... Basta pensar no que os denominados povos civilizados e democráticos estão fazendo pelo mundo afora.... Muito bem: a mesma insensibilidade manifestada nas invasões de todo tipo, onde acontecem massacres, também aparece nas experiências com embriões.... É o espírito de dominação.... de arrogância prepotente que comanda estas experiências. Sob a máscara da piedade se instaura em todos os campos o regime da crueldade. Onde falta reverência diante dos mistérios da vida, ali Hitler ressuscita.
Deve haver limite à pesquisa cientifica? A quem caberia a missão de delimitar suas fronteiras?
Devemos saudar com muita alegria e esperança o surgimento de inúmeros Comitês de Bioética, bem como inúmeros Congressos, inúmeros estudos, inúmeras publicações, visando desenvolver o senso ético. Como vimos acima, ninguém tem resposta pronta para todos os problemas. Estamos vivendo momentos de grande perplexidade. Entretanto, para os cristãos e pessoas de bom senso, não há dúvida de que existe uma clara sinalização entre os caminhos que conduzem à vida e os que conduzem à morte. Esta sinalização recebeu o nome de Dez Mandamentos. Mas o próprio Jesus se encarregou de mostrar que nada há de negativo ou difícil nisto: Basta amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É claro que o diálogo pressuposto pela Bioética, não irá envolver apenas cristãos... E nem significa que nas decisões concretas a aplicação das Dez Palavras de vida seja tão fácil. Mas certamente é nesta altura que se percebe a responsabilidade dos cristãos nesta hora da história: marca presença não para frear o progresso, mas para evitar que em nome do progresso se regrida a um estilo de vida de tempos que foram denominados de bárbaros. Sempre que os poderosos se julgam no direito de decidir pelos outros, caímos na barbárie....
Qual é o limite à “ética da vida” no que diz respeito a esses estudos? Reproduzir cromossomos humanos a partir das células de símios seriam um exemplo de transposição desses limites?
Pergunta difícil de ser respondida.... Claro que ninguém vai aceitar a transgenia no sentido forte da palavra: mescla de seres humanos com outros seres. Mas... é preciso ter muito presente que nenhuma espécie de seres vivos é totalmente pura... Já há uma espécie de intercâmbio natural.... Quem sabe que se possam, por exemplo, desenvolver certos produtos com um “enriquecimento” genético provindo de outras espécies? Os transgênicos oferecem um bom ponto de comparação: uma coisa é enriquecer geneticamente um produto, mas respeitando seu núcleo central. Outra coisa é simplesmente transformar a identidade profunda deste produto, de tal forma que a soja já não seja soja, o milho já não seja milho, o trigo já não seja trigo.... Há uma identidade humana que deve ser conhecida e preservada. É certo que não é fácil traçar o rosto desta identidade, tão complexa. Mas logo se percebe quando se deixa de estar humanizando, para se produzir um monstro qualquer. Tudo isto, é claro, requer muito discernimento e muita prudência. Isto significa que nunca se deve partir do pressuposto de que tudo foi mal feito. Pelo contrário: o pressuposto é de que Deus fez bem todas as coisas e que nos convida a, eventualmente, aprimorar. Isto só é possível se admitirmos que não somos senhores, mas apenas administradores.
Para concluir, peço a licença para o jornalista Gabriel Villalonga, autor da sinopse do livro Conhecimento Proibido, onde ele abre a pergunta: “Até que ponto a curiosidade científica é uma imagem do divino e até que ponto é uma imagem de um eu alienado, de um demiurgo que joga com a vida como se fosse um brinquedo? A conclusão de Shattuck estaria, segundo Villalonga, em uma tese tradicional: a curiosidade humana é admissível enquanto seja regulada pela sensibilidade moral. Hoje em dia este controle é muito mais urgente, uma vez que a velocidade com que a ciência nos conduz ao futuro”. O que o senhor tem a dizer sobre tais afirmações?
Claro que foi Deus quem nos fez seres curiosos. E a curiosidade, quando bem conduzida, é a mãe de todas as descobertas. Mas, como foi bem observado acima, o problema é invadir despudoradamente o templo sagrado da vida, para “explorar” e não para eventualmente aprimorar algum aspecto. Deus nos fez co-criadores e quer que desenvolvamos nossa inteligência, nossa sensibilidade, mas também nossa espiritualidade. Ou seja: para quem está aberto ao Divino, em comunhão com o Criador e todas as criaturas, não há problema em desenvolver a curiosidade. O problema consiste em destronarmos o Criador, perdendo nossa consciência de criaturas, e passarmos a agir como deuses de mentirinha.
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